O envelhecimento faz parte da vida e vem acompanhado de diversas mudanças no organismo, inclusive no funcionamento do cérebro. Algumas alterações cognitivas podem acontecer naturalmente com o passar dos anos, mas determinados hábitos de vida podem contribuir para preservar a saúde cerebral.
Pesquisas analisadas por especialistas apontam três fatores que podem estar relacionados à manutenção da função cognitiva: atividade física, relacionamentos sociais e envolvimento com atividades que despertam interesse e motivação.
Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários estudos de intervenção mais robustos para determinar exatamente como esses fatores influenciam o envelhecimento cerebral.
O que acontece com o cérebro durante o envelhecimento?
O cérebro passa por mudanças estruturais ao longo da vida. Entre elas está a redução gradual da quantidade de matéria cinzenta, que contém estruturas importantes para o funcionamento das células nervosas, sinapses e outras estruturas cerebrais.
Entretanto, a velocidade e a intensidade dessas mudanças podem variar entre as pessoas.
Pesquisas sugerem que indivíduos que mantêm melhores condições de saúde física e cognitiva podem apresentar menor grau de atrofia cerebral do que pessoas com condições menos favoráveis de saúde.
Esse cenário levou pesquisadores a investigar quais comportamentos poderiam estar associados à preservação das funções cerebrais.
A atividade física pode beneficiar o cérebro
Praticar exercícios regularmente não beneficia apenas músculos, coração e condicionamento físico. A atividade física também está associada a diferentes aspectos da saúde cerebral.
Estudos observacionais indicam que manter um estilo de vida ativo pode ajudar a preservar determinadas funções cognitivas, incluindo memória de trabalho, atenção e capacidade de alternar entre diferentes tarefas.
Em uma das pesquisas citadas na análise, adultos mais velhos que realizaram aproximadamente uma hora de exercício aeróbico três vezes por semana durante seis meses apresentaram alterações favoráveis no volume de matéria cinzenta e branca em comparação com o grupo de controle.
Isso não significa que qualquer exercício seja capaz de impedir o envelhecimento cerebral, mas reforça a importância de permanecer fisicamente ativo ao longo da vida.
Exercícios podem aumentar a reserva cognitiva
Um conceito importante quando falamos sobre envelhecimento cerebral é a reserva cognitiva.
Ela pode ser entendida como uma espécie de capacidade de adaptação do cérebro que ajuda uma pessoa a lidar melhor com determinadas alterações relacionadas ao envelhecimento.
Pesquisas citadas no artigo indicam que a atividade física pode favorecer regiões cerebrais envolvidas com atenção, controle cognitivo e atividades do cotidiano, além de estar relacionada à reserva cognitiva.
Por isso, movimentar o corpo regularmente pode fazer parte de uma estratégia ampla para cuidar da saúde cerebral.
Ter bons relacionamentos também pode ser importante
A saúde do cérebro não depende apenas de exercícios físicos.
Manter contato com familiares, amigos, colegas e outras pessoas também pode estimular diferentes capacidades cognitivas e contribuir para o bem-estar.
A revisão analisada pelo Medical News Today encontrou estudos que associam relações sociais à preservação da reserva cognitiva. Algumas pesquisas também identificaram relações entre redes sociais maiores e determinadas estruturas cerebrais envolvidas em processos como tomada de decisões e processamento emocional.
Além disso, estudos de intervenção indicaram que aumentar a interação social em determinadas comunidades pode estar associado a melhorias na função cognitiva e em algumas medidas relacionadas ao cérebro.
O isolamento social pode ter efeitos diferentes
Embora existam evidências favoráveis à importância das relações sociais, os resultados científicos não são completamente uniformes.
O artigo também destaca pesquisas que não encontraram uma relação clara entre relacionamentos sociais e funcionamento cognitivo em fases posteriores da vida. Por isso, os pesquisadores consideram necessários estudos mais robustos para estabelecer uma relação de causa e efeito.
Isso significa que devemos interpretar esses resultados com cautela. Ter uma vida social ativa pode estar associado à saúde cerebral, mas ainda não é possível afirmar que aumentar o contato social, isoladamente, previna o declínio cognitivo.
Ter uma paixão ou interesse pode estimular o cérebro
Outro elemento analisado pelos pesquisadores foi o envolvimento intenso com atividades consideradas importantes ou interessantes para a própria pessoa.
Nesse contexto, “paixão” não se refere necessariamente a uma paixão romântica. O conceito está relacionado a um forte interesse por determinada atividade, habilidade ou área que tenha significado pessoal e motive a pessoa a agir.
Pode ser aprender um idioma, tocar um instrumento, praticar um esporte, estudar história, cozinhar, pintar ou desenvolver qualquer outra habilidade que desperte interesse.
Aprender coisas novas mantém o cérebro ativo
Quando uma pessoa se dedica regularmente a aprender algo novo, ela precisa praticar, prestar atenção, resolver problemas e repetir determinadas ações.
Os pesquisadores sugerem que esse processo pode estar relacionado à chamada plasticidade neural, que é a capacidade do sistema nervoso de modificar suas conexões e se adaptar às experiências.
Um exemplo apresentado na pesquisa é o aprendizado de um novo idioma. Uma pessoa apaixonada por línguas pode praticar com maior frequência e intensidade, proporcionando estímulos contínuos ao cérebro.
A ideia central é que o interesse pessoal pode funcionar como uma motivação para manter uma atividade por mais tempo.
Motivação ajuda a manter a consistência
Encontrar uma atividade que realmente desperte interesse pode facilitar a continuidade de um hábito.
Uma pessoa que gosta de determinada modalidade esportiva, por exemplo, pode ter mais facilidade para praticá-la regularmente. Da mesma forma, alguém interessado em aprender música pode dedicar mais tempo ao treinamento.
Essa combinação entre interesse, prática e persistência pode favorecer o desenvolvimento de habilidades ao longo do tempo.
Os pesquisadores também relacionam características como perseverança e mentalidade de crescimento ao desenvolvimento de determinadas regiões da matéria cinzenta.
Os três fatores podem se complementar
Uma das ideias mais interessantes apresentadas na revisão é que atividade física, relacionamentos e interesses pessoais não precisam ser vistos como fatores isolados.
Uma única atividade pode envolver os três.
Imagine, por exemplo, uma pessoa que participa de um grupo de corrida. Ela pratica atividade física, mantém contato com outras pessoas e participa de uma atividade pela qual possui interesse.
Outro exemplo seria alguém que participa de aulas de dança. Além do exercício físico, existe aprendizado de movimentos, interação social e motivação para continuar praticando.
Dessa maneira, diferentes hábitos podem se complementar.
O bem-estar também pode influenciar esse ciclo
Os pesquisadores levantaram a possibilidade de existir uma relação entre atividade física, participação social e bem-estar.
Quando uma pessoa se torna menos ativa, pode acabar reduzindo também suas interações sociais e atividades prazerosas. Por outro lado, permanecer envolvida com atividades físicas e sociais pode ajudar a manter uma rotina mais ativa.
Essa hipótese é descrita pelos autores como um possível ciclo que pode ser positivo ou negativo dependendo dos hábitos e circunstâncias da pessoa.
Entretanto, são necessárias mais pesquisas para compreender exatamente como esses fatores interagem.
Como cuidar melhor da saúde cerebral?
Embora não exista uma fórmula capaz de garantir que uma pessoa não apresentará declínio cognitivo, alguns hábitos podem contribuir para uma rotina mais favorável à saúde cerebral.
Entre eles estão:
- Praticar exercícios físicos regularmente;
- Manter contato com familiares e amigos;
- Aprender novas habilidades;
- Cultivar hobbies;
- Estimular a curiosidade;
- Manter-se intelectualmente ativo;
- Buscar atividades que proporcionem satisfação e propósito;
- Ter uma rotina equilibrada.
Esses hábitos também podem contribuir para a saúde física e o bem-estar geral.
Ainda existem perguntas sem resposta
É importante destacar uma limitação da pesquisa analisada.
O trabalho publicado é uma revisão da literatura, ou seja, reúne e analisa resultados de estudos anteriores. Os próprios pesquisadores afirmam que são necessários estudos de intervenção para verificar se aumentar deliberadamente paixão, atividade física e interação social realmente causa melhorias na saúde cerebral.
Também ainda não está completamente definido como personalizar esses fatores para diferentes pessoas ou qual seria a combinação ideal entre exercício, aprendizado e interação social.
Conclusão
Cuidar do cérebro pode envolver muito mais do que apenas realizar exercícios mentais.
As evidências analisadas sugerem que atividade física, relacionamentos sociais e envolvimento com atividades que despertam interesse podem estar associados a aspectos importantes da saúde cerebral e da função cognitiva ao longo do envelhecimento.
Manter-se ativo, cultivar relacionamentos e continuar aprendendo coisas novas são estratégias que podem fazer parte de um estilo de vida saudável.
No entanto, os resultados atuais não permitem afirmar que esses fatores, isoladamente, sejam capazes de prevenir o declínio cognitivo. Mais pesquisas serão necessárias para compreender melhor essas relações.
Fonte
Medical News Today — Passion, exercise, and meaningful relationships are a boon to brain health. Artigo escrito por Annie Lennon e revisado por Jessica Beake, Ph.D., publicado em 28 de setembro de 2022.







